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“DAS RUAS ÀS TELAS: A NOVA ARENA DA LUTA FEMINISTA”

Se, por um lado, o sufrágio representou um marco histórico na construção da cidadania feminina, por outro, não foi suficiente para concretizar o ideal de igualdade plena

Publicada em 10/08/26 às 11:55h - 35 visualizações

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“DAS RUAS ÀS TELAS: A NOVA ARENA DA LUTA FEMINISTA”
 (Foto: Portal Mundos dos Famosos)

Rafaela Braga Rosolem

Historicamente, os direitos das mulheres não nasceram da benevolência do Estado, mas da coragem de gerações que desafiaram estruturas de poder e reivindicaram o reconhecimento de sua cidadania. No Brasil, uma das mais importantes materializações dessa trajetória foi a conquista do sufrágio feminino, oficializada em 1932 durante o governo de Getúlio Vargas. Mais do que o simples direito de votar, o sufrágio assegurou às mulheres a possibilidade de participar da vida política, escolher seus representantes e disputar cargos eletivos, consolidando um dos pilares fundamentais de qualquer regime democrático.

Se, por um lado, o sufrágio representou um marco histórico na construção da cidadania feminina, por outro, não foi suficiente para concretizar o ideal de igualdade plena. A desigualdade persistiu, revelando que o reconhecimento formal de direitos não bastava para romper estruturas sociais construídas ao longo de séculos. Foi justamente dessa percepção que o feminismo ampliou seu campo de atuação, incorporando pautas relacionadas à igualdade de oportunidades, ao combate à violência de gênero, à autonomia sobre o próprio corpo e à participação plena das mulheres nos espaços de poder.

Nas primeiras décadas do século XXI, essas reivindicações ganharam novo fôlego com a chamada Primavera Feminista. Impulsionadas pelas plataformas digitais, mulheres passaram a utilizar as redes sociais como espaço de mobilização, denúncia e articulação política. Assim, questões antes restritas aos movimentos sociais e ao ambiente acadêmico passaram a integrar o cotidiano de milhões de pessoas, ampliando o alcance do debate público.

Entretanto, as mesmas redes que fortaleceram o feminismo também ampliaram discursos antifeministas que contestam seu legado. O movimento das “tradwives” (“esposas tradicionais”), por exemplo, promove, por meio das redes sociais, a valorização de papéis tradicionais de gênero, exaltando a dedicação exclusiva ao lar, à maternidade e à dependência econômica do marido como modelo ideal de feminilidade. Embora optar pela vida doméstica seja uma escolha legítima quando feita de forma livre, a controvérsia surge quando esse modelo é apresentado como o único desejável ou moralmente aceitável para todas as mulheres.

Ao mesmo tempo, também ganhou força o slogan “sou feminina, não feminista”. A frase parte da ideia de que feminilidade e feminismo seriam conceitos incompatíveis, como se defender igualdade de direitos significasse rejeitar características tradicionalmente associadas ao universo feminino. Tal narrativa está ancorada na concepção de que o espaço de poder pertence aos homens e de que, ao adotar uma postura combativa em defesa de seus direitos, a mulher estaria assumindo um comportamento considerado “masculino”, criando a falsa dicotomia de que seria preciso escolher entre ser feminina ou feminista.

Essa estratégia integra um fenômeno conhecido como “backlash”, termo utilizado para designar reações organizadas contra avanços conquistados por grupos historicamente marginalizados. No caso dos feminismos, o “backlash” manifesta-se por meio de discursos que desqualificam suas reivindicações, apresentam a igualdade de gênero como ameaça à família e aos valores tradicionais e procuram enfraquecer a legitimidade do movimento no debate público. Nas redes sociais, esses discursos encontram terreno fértil: algoritmos privilegiam conteúdos polarizadores, ampliando o alcance de narrativas simplificadas e, muitas vezes, desinformativas.

A oposição, contudo, não encontra fundamento. O feminismo não determina como uma mulher deve se vestir, trabalhar, constituir família ou exercer a maternidade. Seu objetivo é assegurar que todas essas escolhas possam ser feitas de maneira livre, sem imposições sociais ou jurídicas. A tentativa de retratar a mulher feminista como alguém que perdeu sua feminilidade, ou de rotulá-la como “mal resolvida” ou “mal-amada”, integra uma estratégia discursiva que busca deslegitimar suas reivindicações, desqualificar sua imagem pública e silenciar sua participação no debate sobre igualdade de direitos.

Quase um século depois da conquista do voto feminino, o feminismo permanece como um dos principais protagonistas das discussões sobre democracia, cidadania e direitos humanos. Se antes a luta se travava nas ruas, nas assembleias e nos tribunais, hoje ela também acontece nas telas iluminadas dos celulares, onde discursos disputam atenção, memória e significado. Em meio ao ruído da polarização, recordar a história das mulheres é mais do que revisitar o passado; é compreender que direitos não são heranças definitivas, mas conquistas permanentemente submetidas à prova do tempo. Afinal, toda geração é chamada a decidir entre preservar os caminhos abertos por aquelas que vieram antes ou permitir que eles sejam lentamente apagados pelo esquecimento.

Rafaela Braga Rosolem Estudante de Direito na Universidade do Estado de Minas Gerais.

(rafabrosolem@gmail.com)

 

 




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