
Murilo Donizeti Pereira Moreira - Psicólogo CRP 06/196402
O mês de agosto veste-se de lilás para nos lembrar de uma luta que é de toda a sociedade. Instituído por conta do aniversário da Lei Maria da Penha, o Agosto Lilás nos convida a olhar com coragem para uma realidade que muitas vezes insiste em se esconder atrás de portas fechadas, silêncios cotidianos e, paradoxalmente, dentro de lares que deveriam ser portos seguros.
Quando pensamos em violência contra a mulher, a imagem mais imediata que costuma vir à mente é a do corpo machucado, do hematoma visível. Contudo, a prática clínica e o olhar da psicologia nos revelam uma verdade muito mais ampla e dolorosa: a violência nem sempre começa com um golpe físico. Muitas vezes, ela se infiltra de mansinho, de forma sutil, desestruturando a saúde mental, a identidade e a dignidade da mulher muito antes de qualquer agressão palpável.
A Lei Maria da Penha reconhece e classifica a violência doméstica e familiar em cinco grandes tipos: física, psicológica, moral, patrimonial e sexual. Sob a ótica psicológica, cada uma dessas formas deixa marcas profundas na subjetividade feminina.
A violência psicológica é aquela que atinge a mente, as emoções e a autoestima da mulher. Ela se manifesta por meio de ameaças, constrangimentos, humilhações, manipulações, isolamento de amigos e familiares, vigilância constante e o famoso gaslighting — quando o agressor distorce os fatos para fazer a mulher duvidar de sua própria sanidade e memória.
Frases como: “Você não é ninguém sem mim”, “Você está louca”, “Olha como você se veste, ridícula”, são exemplos desse tipo de violência.
Do ponto de vista da saúde mental, o abuso psicológico destrói o senso de realidade e de valor próprio da vítima. A mulher passa a duvidar de suas capacidades, desenvolve quadros severos de ansiedade, depressão, ataques de pânico e um estado crônico de hipervigilância. É uma violência que anula o "eu", fazendo com que a vítima acredite que é a única culpada pelas agressões que sofre.
A violência moral engloba qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. Acontece quando o agressor inventa mentiras sobre a mulher, expõe sua vida íntima sem autorização, faz críticas públicas vexatórias ou a julga moralmente por suas escolhas, roupas ou comportamento.
O ser humano é social; precisamos do pertencimento e da validação da nossa comunidade para nos sentirmos seguros. Quando a violência moral é acionada, o agressor busca isolar a mulher socialmente, gerando nela uma profunda vergonha, medo do julgamento alheio e sensação de desamparo. A vergonha forçada paralisa a vítima, impedindo-a muitas vezes de pedir socorro por receio de "o que os outros vão dizer".
Controlar o dinheiro da mulher, reter seus documentos, destruir seus bens pessoais, furtar valores ou impedir que ela trabalhe e estude são exemplos de violência patrimonial. Muitas vezes, o parceiro assume o controle absoluto das finanças da casa, exigindo justificativas para cada centavo gasto ou sabotando os esforços profissionais da mulher.
Para a psicologia, a autonomia financeira está intimamente ligada à autonomia emocional. Quando uma mulher é privada de seus recursos e bens, ela perde a capacidade de escolha. O medo da escassez e a dependência financeira geram uma "prisão sem grades": “Para onde vou com meus filhos se não tenho dinheiro nem para o ônibus?”. Essa dependência é um dos maiores correntes que mantêm as mulheres presas em ciclos abusivos.
No aspecto da violência física, entende-se como qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal da mulher: tapas, socos, empurrões, chutes, apertar os braços, estrangulamento ou o uso de armas e objetos cortantes.
O corpo guarda registros traumáticos profundos. A violência física rompe com a barreira primária de segurança que o nosso organismo exige para existir. A mulher que sofre agressão física vive em estado de estresse pós-traumático constante. O medo da morte iminente paralisa o sistema nervoso, gerando um ciclo de terror onde a esperança de sobrevivência disputa espaço com a exaustão física e emocional.
Muitas pessoas pensam que a violência sexual só ocorre com o uso de força física extrema por desconhecidos na rua. No entanto, no contexto doméstico, ela se manifesta de forma sutil ou escancarada: quando a mulher é obrigada a manter relações sexuais indesejadas, quando o parceiro impede o uso de métodos contraceptivos, quando força a gravidez ou quando usa de chantagem e manipulação para obter consentimento.
O corpo é o templo da nossa individualidade. A violação sexual — mesmo dentro do casamento — gera uma profunda cisão psíquica. A vítima frequentemente relata sentimentos de nojo, culpa infundada, perda completa do desejo, distúrbios de imagem e dissociação (a sensação de "sair do próprio corpo" para não sentir o que está acontecendo). É uma das violências que mais ferem a dignidade humana.
A psicologia nos ensina que a violência doméstica costuma operar em um ciclo: começa com o aumento da tensão (ofensas, pequenas irritações), passa para a explosão (o ato violento em si) e culmina na chamada "lua de mel", onde o agressor pede desculpas, chora, promete mudar e se mostra amoroso. É essa última fase que confunde a mente da vítima, gerando a esperança de que o parceiro voltará a ser "aquele homem de quem ela se apaixonou".
Por isso, julgar a mulher que demora a sair de uma relação abusiva é um erro grave. O cérebro sob trauma crônico sofre alterações em sua química e funcionamento, gerando medo paralisante, dependência emocional e perda de referências.
O Agosto Lilás nos convoca a um papel ativo: romper o pacto de silêncio da sociedade. A violência contra a mulher não é um "assunto de família" que não se deve meter; é uma grave violação dos direitos humanos.
Se você reconhece esses sinais em sua própria vida ou de alguma amiga, vizinha e familiar, saiba que você não está sozinha. Existem redes de apoio psicológico, social e jurídico preparadas para acolher sem julgamentos.
A informação é a primeira ferramenta de libertação. Denuncie, apoie, acolha.Central de Atendimento à Mulher: Ligue 180 (funciona 24 horas, é gratuito e confidencial). Em emergências iminentes: Ligue 190 (Polícia Militar).