
Marcus Vinícius de Almeida Campos
Imagine uma família reunida para decidir algo simples, como: onde será o almoço de domingo? Todos opinam. Menos a pessoa idosa.
Na vida dessa pessoa idosa, é comum que alguém escolha por ela o que vai comer. Outro decide o horário em que deve sair de casa. Um terceiro responde às perguntas que o médico faz durante a consulta, sem sequer esperar que ela fale.
Quase sempre isso acontece por carinho. Os familiares querem proteger, facilitar a rotina e evitar preocupações.
Mas, sem perceberem, começam a retirar da pessoa idosa algo muito valioso: o direito de decidir sobre a própria vida.
Ao longo dos últimos anos, tenho falado bastante nesta coluna sobre autonomia. Foi discutida a importância da força muscular, do equilíbrio, da capacidade de caminhar e de continuar participando da vida social.
Mas existe outra forma de autonomia que muitas vezes passa despercebida. A autonomia para fazer escolhas.
Envelhecer não significa perder automaticamente a capacidade de tomar decisões.
Na verdade, enquanto a pessoa mantém preservadas suas capacidades cognitivas, ela continua tendo o direito de participar das decisões que envolvem sua rotina, sua saúde, seus desejos e seus projetos.
É claro que algumas situações exigem apoio da família, principalmente quando existem doenças que comprometem a memória, o raciocínio ou o julgamento.
Mas isso não deve servir de justificativa para retirar da pessoa idosa todas as oportunidades de escolha.
A perda da autonomia costuma acontecer de maneira silenciosa.
Primeiro alguém decide qual roupa ela deve vestir.
Depois escolhe o que ela vai comer.
Mais tarde passa a responder por ela durante consultas médicas.
Até que chega um momento em que a pessoa já não é mais consultada sobre assuntos importantes da própria vida.
E isso pode produzir consequências que vão muito além da organização da rotina.
Quando alguém deixa de tomar decisões, acaba não exercitando habilidades importantes do cérebro, como planejamento, julgamento, memória e resolução de problemas.
Além disso, a sensação de inutilidade ou de perda de controle sobre a própria vida pode favorecer isolamento, desânimo e redução da autoestima.
É importante compreender que oferecer ajuda é diferente de retirar a autonomia.
Apoiar significa criar condições para que a pessoa continue participando das decisões. O que é bem diferente de decidir em seu lugar, quando ela ainda é capaz de escolher.
Às vezes, pequenos gestos fazem toda a diferença.
Perguntar qual roupa prefere usar.
Qual caminho gostaria de fazer durante uma caminhada.
O que gostaria de preparar para o almoço.
Ou simplesmente ouvir sua opinião antes de tomar uma decisão familiar.
Essas escolhas podem parecer simples.
Mas representam respeito, dignidade e reconhecimento.
O envelhecimento saudável não depende apenas de preservar músculos, ossos e articulações.
Depende também de preservar aquilo que nos torna protagonistas da própria história.
Porque autonomia não é apenas conseguir levantar da cadeira ou caminhar sem ajuda.
É continuar tendo voz.
É continuar sendo ouvido.
É continuar participando das decisões que dão sentido à própria vida.
Envelhecer não deveria significar perder o direito de escolher.
Deveria significar continuar fazendo escolhas, ainda que algumas delas precisem do apoio de quem está ao nosso lado.
Afinal, cuidar de uma pessoa idosa não é decidir por ela.
É ajudá-la a continuar vivendo a vida como protagonista da sua própria história.
Marcus Vinícius de Almeida Campos
Graduado em Educação Física
Especialista em Nutrição
Doutor em Promoção da Saúde