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A VELHICE QUE ESTÁ SENDO CONSTRUÍDA HOJE

Durante muito tempo, a velhice foi associada à dependência, ao afastamento da vida social e à perda de participação na sociedade

Publicada em 09/03/26 às 13:53h - 40 visualizações

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 (Foto: Portal Mundos dos Famosos)

A VELHICE QUE ESTÁ SENDO CONSTRUÍDA HOJE

Marcus Vinícius de Almeida Campos

Imagine uma pessoa de 40 ou 50 anos hoje. Ela usa celular diariamente, trabalha diante de telas, conversa por vídeo com familiares, faz compras pela internet e busca informações de saúde em aplicativos. Muitas vezes acompanha exercícios físicos por vídeos, lê notícias no telefone e resolve boa parte da sua vida por meio de um aparelho que cabe no bolso.

Agora imagine essa mesma pessoa daqui a trinta anos. Ela será idosa.

Mas, provavelmente será uma pessoa idosa muito diferente daquela que estamos acostumados a imaginar.

Durante muito tempo, a velhice foi associada à dependência, ao afastamento da vida social e à perda de participação na sociedade. Porém, as transformações sociais, tecnológicas e educacionais das últimas décadas estão mudando profundamente esse cenário.

A geração que está envelhecendo agora cresceu em um mundo com mais acesso à informação, maior escolaridade e mais oportunidades de participação social. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil já possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que representa cerca de 16% da população. Há poucas décadas esse número era menos da metade.

Isso significa que o país está envelhecendo rapidamente.

Ao mesmo tempo, as pessoas estão vivendo mais. A expectativa de vida no Brasil já ultrapassa 76 anos, segundo o IBGE, e a tendência é que esse número continue aumentando nas próximas décadas.

Esse novo cenário está formando uma geração de idosos diferente daquela que conhecemos no passado.

Uma geração mais conectada, mais informada e, em muitos casos, mais ativa socialmente.

Muitos continuarão trabalhando por mais tempo, participando de atividades culturais, aprendendo novas habilidades e utilizando tecnologia no cotidiano.

Porém, essa transformação também traz novos desafios.

O uso intenso de tecnologia, que hoje facilita a vida de milhões de pessoas, também pode produzir efeitos que acompanharão essa geração na velhice.

Um deles é o aumento do tempo sedentário. Muitas atividades que antes exigiam deslocamento ou esforço físico passaram a ser realizadas diante de telas. Trabalhamos sentados, compramos sentados, nos informamos sentados e, muitas vezes, nos divertimos sentados.

Esse padrão de comportamento pode contribuir para problemas como perda de massa muscular, piora da capacidade funcional, doenças cardiovasculares e maior risco de fragilidade na velhice.

Outro ponto é o impacto cognitivo do consumo constante de estímulos rápidos e fragmentados, como vídeos curtos e navegação contínua entre conteúdos digitais. O cérebro humano foi moldado para lidar com atenção prolongada, leitura mais profunda e interação social direta. Quando esses estímulos são substituídos por consumo rápido de informação, podem surgir dificuldades relacionadas à concentração e à memória.

Há ainda o aspecto social.

A tecnologia facilita o contato à distância, mas não substitui completamente o convívio presencial. Relações mediadas apenas por telas podem reduzir a qualidade das interações humanas e favorecer sentimentos de isolamento, um fator que já é reconhecido por diversos estudos como um risco para a saúde mental e cognitiva na velhice.

Isso não significa que a tecnologia seja um problema.

Ao contrário, ela pode ser uma grande aliada do envelhecimento saudável. Aplicativos de saúde, telemedicina, programas de exercícios, acesso à informação e comunicação com familiares são exemplos de como o mundo digital pode ampliar a autonomia das pessoas idosas.

O desafio está no equilíbrio.

A geração que vai envelhecer nas próximas décadas terá mais ferramentas do que nunca para cuidar da própria saúde, manter vínculos sociais e continuar participando da vida em sociedade. Mas também precisará aprender a usar essas ferramentas de forma consciente.

Porque envelhecer bem não depende apenas dos avanços tecnológicos.

Depende também dos hábitos que construímos ao longo da vida.

A velhice do futuro será diferente daquela que conhecemos hoje. Mais longa, mais ativa e mais conectada.

Mas para que ela seja também mais saudável e mais humana, talvez seja preciso lembrar de algo simples: tecnologia pode aproximar pessoas, mas não substitui movimento, presença e relações reais.

A forma como envelheceremos amanhã começa nas escolhas que fazemos hoje.

Marcus Vinícius de Almeida Campos

Graduado em Educação Física

Especialista em Nutrição

Doutor em Promoção da Saúde

 




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