
O AUTODIAGNÓSTICO EM SAÚDE MENTAL, FEITO POR IA: QUAIS SÃO OS RISCOS?
Murilo Donizeti Pereira Moreira – Psicólogo CRP 06/196402
A ideia de fazer psicoterapia com uma IA é um dos tópicos mais polêmicos da tecnologia atual. Já não estamos falando apenas de ficção científica; milhões de pessoas já utilizam ferramentas de IA como apoio emocional diário.
No entanto, é preciso distinguir entre apoio emocional e psicoterapia clínica.
Atualmente, a IA não replica a intuição de um terapeuta, mas aplica metodologias estruturadas, principalmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
Uma das técnicas mais utilizadas em contexto de clínica por psicólogos da TCC é o Desafio de Pensamentos. Porém, no contexto digital, basicamente a IA ajuda a identificar as distorções cognitivas, levando a pessoa a reestruturar o que pode estar causando sofrimento emocional no momento.
Entretanto, é algo extremamente perigoso por faltar um dos pilares imprescindíveis para o manejo clínico adequado, que é a conexão humana através do vínculo terapêutico.
Certa vez ouvi de uma grande professora, em algum curso que eu já realizei, que “Psicoterapia é feita com carne”, ela utilizou essa analogia para dizer que não era tão adepta ao modelo de psicoterapia online, o que faz sentido em alguns casos. Em relação a psicoterapia por IA, essa fala é muito sensata e correta.
Não podemos ignorar os riscos de confiar a mente humana a um algoritmo.
A IA pode soar acolhedora, mas ela não "se importa". Isso pode criar uma falsa sensação de conexão que isola o usuário do convívio social real.
Em casos de ideação suicida ou surtos psicóticos, a IA ainda tem dificuldades em oferecer a intervenção complexa necessária, embora já existam protocolos de redirecionamento.
A mente humana é influenciada pelo corpo, cultura e história. A IA tende a tratar a saúde mental como um "problema de software" a ser corrigido com lógica, fazendo da demanda emocional algo extremamente reducionista.
Use a IA para organizar seus pensamentos e sintomas. Se ela indicar algo, leve esse "relatório" para um psicólogo ou psiquiatra humano. A tecnologia é ótima para monitorar o caminho, mas quem deve dirigir o tratamento é um profissional qualificado.
O autodiagnóstico via IA deve ser encarado como uma ferramenta de triagem, e nunca como uma palavra final.